Brasileira que sofreu ataque racista nos EUA é ativista em causas migratórias e sociais


Gisele Barreto durante campanha de doação de alimentos em Braddock, PA (Foto: Arquivo pessoal)
Gisele Barreto durante campanha de doação de alimentos em Braddock, PA (Foto: Arquivo pessoal)

DA REDAÇÃO – O recente ataque racista sofrido pela brasileira Gisele Barreto Fetterman, 38, casada com o vice-governador da Pennsylvania John Fetterman, repercutiu em rede nacional, tanto nos Estados Unidos, como no Brasil. Canais como CNN, CBS entrevistaram a brasileira, além de reportagens em jornais como o New York Times.

Entretanto, Gisele não é uma estranha das câmeras e microfones da imprensa. Não como vítima de racismo, mas como ativista social na cidade de Braddock, PA, onde mora com o marido. Defensora dos direitos dos imigrantes, em especial os conhecidos como “Dreamers”, suas campanhas em defesa dos negros, LGBT, detentos e pessoas em vulnerabilidade social fizeram da brasileira uma estrela no estado e fora dele.

Morando nos EUA desde os 7 anos, Gisele e a família sabe bem o que significa viver com poucos recursos e com o fantasma da deportação. Durante quase 15 anos ela viveu sem documentos. Hoje, naturalizada e mãe de três filhos, Gisele não tem receio de contar sua história. Em uma palestra para o Tedx Talks de 2016, ela relata como a família abandonou o Rio de Janeiro após um ano de frequentes assaltos sofridos. Antes de completar 8 anos, Gisele, a mãe e o irmão se viram morando em Nova Iorque. “Nós não conhecíamos ninguém, não falávamos inglês. Estávamos sozinhos sem documentos morando em Nova Iorque”, relembra.

Gisele posa ao lado de um cartaz com sua imagem para promover a participação da comunidade no Census (Foto: Divulgação)
Gisele posa ao lado de um cartaz com sua imagem para promover a participação da comunidade no Census (Foto: Divulgação)

Em 2007, após ler um artigo sobre a decadente cidade de Braddock, ela escreveu uma carta ao então prefeito, hoje seu marido, pedindo ajuda para abrir um programa de verão para as crianças locais. Gisele também queria saber mais sobre a cidade que já foi um dos grandes produtores de ferro. Foi o início de uma jornada dedicada a ajuda comunitária.

A pequena cidade de Braddock, de pouco mais de 2000 habitantes e localizada no subúrbio da Filadélfia, já foi um dos mais importantes centros de produção de ferro do país. A indústria Edgar Thomson chegou a empregar 90 mil funcionários em seu período de glória, ajudando a promover a revolução industrial. Um século depois a cidade forneceu ferro e aço que ajudou as tropas aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Com a queda brutal da demanda de ferro e a consequente diminuição da produção, o número de funcionários foi diminuindo ao longo dos anos. Hoje não passa de 900. Sem emprego, milhares de famílias se mudaram em busca de trabalho, deixando para trás uma cidade em decadência e com altos índices de criminalidade.

Foi neste cenário que Gisele conheceu a cidade e decidiu ficar. Os programas de ajuda social que fazem parte da sua vida desde os 20 anos, ganhou um campo fértil e se expandiu.

Em 2012 Gisele fundou a Free Store 15104, uma loja onde, segunda a placa colocada na frente da loja, recebe apenas abraços como moeda de troca. Toda mercadoria é doada de lojas e residentes da cidade. De móveis, passando por brinquedos e roupas até alimentos e materiais de higiene pessoal. Tudo de graça para aqueles que necessitam. “Nós sonhamos com uma comunidade construída em relacionamentos com base na cooperação mútua”, diz o website da loja. “Nós usamos a distribuição de itens gratuitos como um catalisador de mudança e encorajamos a reciclagem como meio de neutralizar o desperdício e consumo excessivo”, diz ela.

Além da loja, ela também ajudou a fundar a 412 Food Rescue. Uma organização que recebe alimentos de supermercados que, devido ao excesso de estoque ou proximidade da data de validade, iriam para o lixo. Estes alimentos são entregues para outras entidades que fazem a distribuição para pessoas em vulnerabilidade social.

Quando o marido se tornou o vice-governador do estado, a família passou a ter direito a ocupar uma mansão de propriedade do estado na cidade de Fort Indiantown Gap, localizada a cerca de 3 hora e meia de carro de Braddock. Gisele e o marido decidiram permanecer da casa onde moram. Com a mansão vazia, e uma piscina de 140 metros quadrados continuando à disposição deles, o casal decidiu abrir para toda a comunidade. Entidades não governamentais realizam programas que ensinam segurança na água para jovens e crianças. Em especial para famílias de afro-descendentes. As estatísticas mostram que este grupo tem três vezes mais risco de afogamento em comparação com famílias brancas.

“Nós podemos ter um papel central na mudança desta estatística”, disse ela. “Natação vem com um legado doloroso de segregação racial. Se minhas crianças podem nadar nesta piscina, toda criança da Pensilvânia também pode”.

Dreamers

Em agosto desde ano, menos de dois meses após a administração Trump tentar acabar com o programa DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals), que protege de deportações jovens estudantes que chegaram ao país sem documentos trazidos pelos pais, Gisele e o marido escreveram uma carta aberta criticando a posição do governo federal e sua insensibilidade com estas pessoas. Ela própria, que já foi uma destas pessoas, disse na carta que “nosso país enfrenta problemas reais e sistêmicos. E, criminalizar alunos do ensino médio que querem apenas viver uma vida normal, não faz nada para nos tornar mais felizes, saudáveis ou seguros”, diz trecho da carta.


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