Conexão-UF: Viajar durante a pandemia: restrições e novas oportunidades


Com as mudanças recentes a gente começou a explorar o turismo local e virtual (foto: reprodução)
Com as mudanças recentes a gente começou a explorar o turismo local e virtual (foto: reprodução)

Por István Kérészy

Em poucos meses a covid-19 transformou nossas perspectivas sobre viagens. Fronteiras fecharam, voos foram cancelados, famílias foram separadas, o turismo parou, e alunos estrangeiros precisaram postergar seus estudos. Como podemos lidar com esta situação, entender as restrições mais recentes, manter uma abordagem positiva, e conhecer novos destinos? Nesta coluna vamos explorar estes temas e compartilhar dicas para ajudar no planejamento da sua próxima viagem.

Viajar para os EUA, o Brasil, e outros países

Como podemos visitar a Disney? Os EUA fecharam suas fronteiras em março para diminuir a propagação do coronavírus e naquele momento apenas os cidadãos americanos e residentes permanentes conseguiram entrar no país. Agora as leis mudaram um pouco e visitantes podem ingressar outra vez a menos que eles tenham visitado certos países nos últimos 14 dias. A lista mais recente contém seis regiões proibidas: o Brasil, a China, a União Europeia, o Irã, o Reino Unido e a Irlanda. Exceções existem, por exemplo, os parentes de cidadãos americanos e residentes permanentes, diplomatas e estudantes universitários têm acesso. Então, os turistas brasileiros em geral não podem entrar nos EUA agora, e aquela viagem que você tinha planejado para a Disney vai ter que ser postergada.

O Brasil abriu suas fronteiras no dia 14 de outubro e os estrangeiros podem entrar no país por terra, mar, ou ar. Esta decisão facilita a viagem para o Brasil. Infelizmente, há poucos voos diretos entre os EUA e o Brasil agora. Quer viajar para a Europa?

Apesar de haver alguns voos internacionais, nem os brasileiros nem os estadunidenses podem entrar na União Europeia neste exato momento. Porém, devido à pandemia, exceções foram concedidas:

1.         Visto de Amor: Alguns países europeus como os Países Baixos e a Alemanha emitem vistos de amor para casais. Relacionamentos amorosos por mais de 6 meses qualificam como relacionamentos de longa duração. Pelo menos um dos pares deve ter um passaporte europeu, e eles têm que mostrar que se encontraram pessoalmente pelo menos duas vezes antes do começo da pandemia. Como provar isso? Podem usar um recibo de hotel se fizeram uma viagem juntos, ou postagens em Facebook, Twitter ou WhatsApp. Finalmente, precisam assinar uma declaração para confirmar seu relacionamento para a imigração. 

2.         Visto para investidores: Pessoas que queiram investir pelo menos €500.000 nos Países Baixos ou dar empregos para no mínimo cinco pessoas conseguem acesso ao país. Muitos países europeus sofrem economicamente por causa da pandemia e querem atrair investidores, facilitando a entrada e saída dos mesmos. Porém, isso também levanta um dilema. Os ricos estão fora da lei? Eles podem viajar mesmo quando os outros não podem? Para lidar com este dilema, os investidores devem planejar e documentar todas as etapas das suas viagens antes de entrar no país. Eles devem reservar um quarto de hotel e ficar lá por 10 dias de quarentena, e depois precisam justificar cada dia no país, documentando reuniões e/ou outras funções profissionais. Acho isso muito importante para que as pessoas não mascarem viagens de turismo como viagens de negócios

3.         Visto para profissionais com conhecimentos especiais: Atletas profissionais, músicos, artistas, jornalistas e pesquisadores podem se candidatar para os vistos. Estes profissionais devem mostrar que pertencem às organizações internacionais que regulam suas profissões, e explicar como suas visitas vão contribuir ao esporte, à cultura, ao jornalismo, ou à ciência do país. Geralmente, apenas os profissionais mais conhecidos podem pedir um visto e mesmo eles devem justificar cada dia no país. 

Estudantes internacionais

E os estudantes internacionais? Entrevistei duas alunas universitárias, Bettina e Annie, para melhor compreender a situação atual. Bettina é uma estudante internacional da Hungria que nada no time competitivo do clube Florida Gators. Ela passou o verão na Hungria, mas teve que voltar para Gainesville, Flórida, em agosto para treinar com seu time. Bettina conseguiu voltar para os EUA porque, como aluna da universidade, ela pertence ao grupo de estrangeiros que podem entrar no país mesmo tendo estado na Europa 14 dias antes da viagem. Ela conseguiu entrar sim, mas a família não pode visitar Bettina. Ela ficou triste quando ouviu que seus pais não têm a oportunidade de assistir a sua última competição como uma Florida Gator, chamada Senior Day. Apesar disso, ela está feliz por poder treinar de novo e se sente segura porque o time faz prova de COVID com frequência. A outra aluna, Annie, conheceu seu namorado (Dorian) na universidade e a pandemia teve um impacto profundo na sua relação. Annie é estadunidense, mas seu namorado é francês. Ele fez um programa de intercâmbio nos EUA que terminou em dezembro de 2019 e depois ele voltou para França. Dorian planejou uma viagem para visitar Annie em abril de 2020, mas as fronteiras dos EUA fecharam no dia 13 de março e ainda não abriram para europeus. Infelizmente, eles não se encontraram por mais de 11 meses porque Annie não pode entrar na França e Dorian não pode entrar nos EUA. Annie usa o Twitter para se conectar com políticos franceses e liderou a campanha de #LoveIsNotTourism para convencer os políticos a adotar regras que permitam o reencontro de casais e familiares. 

O turismo, a economia, e o e-turismo na Flórida

Flórida sem turistas? Com atrações como as praias de Miami e os parques temáticos de Orlando, a Flórida é o estado com a maior dependência em turismo. Sem turismo as atrações ficaram vazias, milhares de pessoas perderam seus empregos, e a economia do estado parou. Agora, a Flórida tenta atrair visitantes de novo com um foco no turismo doméstico e alguns economistas acham que tudo vai voltar ao normal rapidamente porque o estado reabriu. Na verdade, as estatísticas mais recentes mostram que o número de turistas estrangeiros sofreu uma queda de 91,1% e o número total de visitantes caiu 60,5%. Muitas companhias grandes precisam de tempo para tomar decisões. Por exemplo, faz duas semanas a Disney decidiu que no fim deste ano, 18.000 empregados da Disney World serão demitidos. Além disso, as mudanças podem ter repercussões que afetam pessoas fora do setor turístico porque com menos turistas pagando impostos turísticos e um menor orçamento estadual o Estado de Flórida deve reduzir seus custos. Isso vai impactar os funcionários estaduais e também nossa Universidade da Flórida em breve, mesmo que os detalhes ainda não sejam públicos. 

Tem um lado positivo? Tem, sim. Com as mudanças recentes a gente começou a explorar o turismo local e virtual, e de uma certa forma voltou aos passatempos mais tradicionais. Em geral, é fácil esquecer sobre os parques, praias, e outros lugares interessantes perto de nossa casa, e apenas valorizar destinos do outro lado do mundo. Agora as agências de viagens começaram a oferecer novos destinos locais e a gente começou a valorizar as pequenas maravilhas de nossos bairros.

https://performingarts.ufl.edu/ufpa-live-info/Também encontramos novas maneiras de aproveitar o gastroturismo e o turismo cultural. Começamos a cozer pão em casa e sovar a massa para espaguete. Muitos museus e teatros decidiram oferecer visitas e programações online. Por exemplo, a Universidade da Flórida mudou seu teatro para uma plataforma online e o Museu Dalí tem novas exposições que a gente pode acessar na web.

Esta ideia de recriar comidas de outras culturas em casa e assistir eventos culturais em sua cidade em vez de viajar para o exterior, representa uma abordagem mais antiga dum mundo antes do começo do turismo de massa. Por outro lado, isso pode levar a um futuro mais sustentável com mais atividades locais e uma menor emissão de dióxido de carbono.

Texto produzido por István Kérészy (University of Florida) –, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação.


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