Músicos brasileiros se reinventam em tempos de isolamento social nos EUA


Beatriz Malnic não interrompeu suas atividades devido a pandemia. Apresentações e aulas migraram para o formato digital (Foto: Divulgação)
Beatriz Malnic não interrompeu suas atividades devido a pandemia. Apresentações e aulas migraram para o formato digital (Foto: Divulgação)

O palco é o estúdio construído em um dos cômodos da própria casa e a plateia vem dos dois Ipads cuidadosamente colocados entre o violão e o microfone. Antes de começar a cantar clássicos da MPB, Rose Max e o marido, o produtor musical Ramatis Moraes, tratam os internautas como se eles de fato estivessem presentes para mais uma de suas lives transmitidas pelo Facebook. Na definição deles, um talk show musical. O casal conversa, trocam sugestões e, principalmente, atende aos diversos pedidos de música.

O cenário é muito diferente de cinco meses atrás quando se apresentavam durante toda a semana para plateias de carne e osso no sul da Flórida. A pandemia acabou com os shows, mas a interação, mesmo que digital, com os fãs antigos e os novos que a tecnologia trouxe, não parou. “Foi a forma que encontramos para nos reinventarmos neste momento de crise no setor de shows e nos manter financeiramente. A música é minha vida”, diz Moraes que parou de tocar ao vivo no início de março com o início da pandemia.

Nem todos os artistas estavam preparados para uma mudança brusca na forma de se apresentarem, incluído Moraes e Rose Max. Ele confessa que entendia pouco ou quase nada de como levar às pessoas uma apresentação online. Foi preciso semanas de estudo, pesquisas e tentativas para começar a compreender como tudo funcionava. Hoje o casal faz três apresentações por semana e já começa a colher os frutos do trabalho.

O casal Rose Max e Ramatis apostou na autenticidade das lives para fugir da crise (Foto: Divulgação)
O casal Rose Max e Ramatis apostou na autenticidade das lives para fugir da crise (Foto: Divulgação)

“O mês de junho foi o melhor até hoje. Conseguimos pagar todas as nossas contas e ainda sobrou”, disse Moraes orgulhoso. Além das lives abertas eles também fazem apresentações por encomenda para grupos específicos.

O setor artístico no país é um dos mais atingidos pela crise do novo coronavírus e o estrago não poderia ser pequeno. Os números que o setor gera impressionam. Dados de 2016, o último disponível pelo National Endowment of the Arts, a agência de artes do governo federal, mostra que o setor empregou mais de 5 milhões de pessoas e injetou na economia $804.2 bilhões. $60 bilhões a mais que o setor de construção e $227 bilhões a mais que transporte e armazenamento. Isso dá uma noção do impacto. Em Massachusetts, onde o senado estadual promoveu uma audiência pública, representantes do setor artístico disseram que será preciso dezenas de milhões de dólares e múltiplos anos para recuperar o setor.

Na esteira da arte, setores como restaurantes, bebidas, transporte e hotelaria foram tragados para dentro de uma crise sem precedentes. Mesmo que em alguns estados a lenta abertura da economia irá permitir que show e apresentação ao vivo sejam retomados, sem uma vacina disponível é pouco provável que grande parte das pessoas se sinta confortável para comparecer em locais fechados e cheios de pessoas. Sem a intervenção do governo federal, a crise pode se alastrar por anos.

É o que acredita Rick César, 35, vocalista da banda TheMentals de Massachusetts. Ele vislumbra as opções para bandas como a dele ainda mais reduzidas quando comparadas a dos artistas que cantam e tocam sozinhos ou em duplas. “Muitos dos lugares onde a banda se apresentava, como restaurantes, por exemplo, já não é mais possível devido ao distanciamento social. Nosso estilo, como banda de rock, é tocar para muitas pessoas que se aglomeram. Estas oportunidades acabaram”, diz ele completando que a banda ainda não fez a mudança para o universo online.

Países como Inglaterra e Alemanha anunciaram pacotes de ajuda financeira da ordem de bilhões somente para o setor artístico e cultural. Nos Estados Unidos o socorro chegou dentro do pacote CARES Act, que não faz distinção de indústria.

Enquanto a ajuda não chega, os artistas se viram como podem. Muitos encontraram em outras atividades fora da arte a forma para atravessarem a crise.

Beatriz Malnic, 56, é uma destas artistas. Cantora pianista e arranjadora consagrada, e uma das fundadoras do grupo Brazilian Voices, da Flórida, ela fez parte da banda de apoio do cantor Toquinho por cinco anos antes de se estabelecer nos Estados Unidos em 1996.

Assim como o marido, Malnic vive exclusivamente da música. Ela estima que o grupo Brazilian Voices viu os rendimentos contraírem entre 30% e 40%. O impacto do cancelamento de todas as apresentações ao vivo só não foi maior devido as lives. “O Brazilian Voices é uma instituição sem fins lucrativos. Recebemos fundos do governo federal. Isso não mudou com a pandemia. Perdemos, no entanto, a renda vinda de apresentações que fazíamos semanalmente. Foram 24 cancelamentos”, explica ela que ainda ministra aula de canto e piano que também migraram para o universo digital.

O produtor Carlos Borges, que a mais de 20 anos promove o Focus Brasil, com sede na cidade de Fort Lauderdale, Flórida, analisa que o setor artístico está em transformação e vê com preocupação a atual crise que atingiu grande parte dos músicos e produtores. “Sem receita, sobreviver virou um desafio de reinvenção e cada um tem se virado como pode, dentro e fora da música”, analisa Borges. Quanto ao futuro do setor ele acredita que a arte não irá acabar, mas sofrerá transformações. “A arte é tão essencial quanto oxigênio e água. Sempre existirá. O que se renovam são as plataformas e os formatos. Já estamos vivendo a grande migração digital e ela ditará os rumos da arte nos próximos anos”, profetisa.

Moraes vai mais longe e dá um recado. “É o momento da classe artística mudar e se diversificar ao invés de ficar parada reclamando da vida”.


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